Política.
Para tudo.
Pára tudo.
Mafalda, 25jul09
sábado, 25 de julho de 2009
quinta-feira, 23 de julho de 2009
sexta-feira, 17 de julho de 2009
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Saí catando do "nome próprio" alguns posts específicos. Deparei-me com "da paixão" [http://nomepropriofilme.blogspot.com/2008/07/da-paixo.html]. Acho que eu já havia lido ou a gente já havia trocado esse texto, não lembro. Talvez dele tenha surgido um post comum, gestado por busca no Houaiss, em que começamos: desapaixonado. Há tempos reclamamos sereno. Pero, somos seres de paixão, muchacha. Se "ser passional é qualidade e defeito", fiquemos com os dois. Camelo já alertou que "ninguém escapa ao peso de viver assim", então "prefiro assim, com você juntinho". Amo
Mafalda, de[ve]z-apaixonado, 15jul09
Mafalda, de[ve]z-apaixonado, 15jul09
Uma menina a conversar com bem-te-vi.
De vinte e cinco de junho de dois mil e nove. E não oito dias depois. Está anotado. Eu e minhas esculhambações. Em todo e qualquer papel. O vício. Torna-se, parece-me, cada vez mais destrambelhado. Vício. Incontrolável.
- Logo! Logo! Um lápis também!
Mafalda, 14jul09
De vinte e cinco de junho de dois mil e nove. E não oito dias depois. Está anotado. Eu e minhas esculhambações. Em todo e qualquer papel. O vício. Torna-se, parece-me, cada vez mais destrambelhado. Vício. Incontrolável.
- Logo! Logo! Um lápis também!
Mafalda, 14jul09
terça-feira, 14 de julho de 2009
Há um tempo sinto-o por perto mais do que nos vinte e poucos antes. Talvez o afeto tenha aproximado um tanto que as responsabilidades assumidas distanciaram. Fomos nós mais nós só nós naquele um abraço magrelo de fim de noite. No advento de sensações contraditórias. Como que dizendo: pois é pois então pois tá. Vê-lo atitude. E sentir-me inerte. Vê-lo ação. E sentir-me preocupação. Pesa o que ele disser. Pesa o que eu pensar. Na conjuntura, finda a aposta feita.
Mafalda, MagoVéi, 14jul09
Mafalda, MagoVéi, 14jul09
segunda-feira, 13 de julho de 2009
E eu não sabia de onde vinha aquela vontade de cigarrilhas. Não sabia que disparate foi o dessa insônia de há dias ida. Não sabia se saia desse digo-não-digo-digo. Não sabia o porquê do retorno da piracema. Do converseiro, voltei mais uma das milésimas nossas vezes aos escritos. Bernardo fez um ano.
Mafalda, 13jul09
Mafalda, 13jul09
domingo, 12 de julho de 2009
Ela assume a aventura de ir-se. Juventude muito se atreve de liberdade. Nisto, a admiro. Nisto, minha velhice atrapalha-me. Outrora, já haveria arriscado. Por ora, atenho-me aos oníricos contos espanhóis. Eu confesso. No limite do destrambelhamento, encontro-me como quem quisesse racionalizar. Demasiados os custos energéticos deste feito. Enquadro-me em meu erro fatídico. Repetitivo e cruel: cegar-me. É besteira, diria neste tempo. É besteira, direi mais a frente. Eu e minhas antecipações incrédulas! E o risco. O riso. O rio. O rico experimento da insônia. Em meu consumo consciente de expectativas. Comum percurso abalado. Comum percurso abalável. Pela maturidade minha. Pela maturidade alheia. Num desencontro de ambas. Que não permite. Que não se permitem. Que assumem a desvendura estável. Que assumem o instável.
Mafalda, Je sais, 11jul09
Mafalda, Je sais, 11jul09
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Era o oitavo dia do mês em que as coisas acontecem quando vossa senhoria se arranjou com um ano a mais. Brincando de ser feliz, ou seja, encontrando-me desnuda de adultez, apressei-me para assistir a era do gelo 3. Já havia acordado em dia de luz. É que do almoço fiz um par de luas. Uma minha. Outra dela. Tapiocas esvoaçam em pressas corriqueiras. Corroída de tarefas inglesísticas, matei a tarde, compesada só e somente só por ter falado ao telefone com vosmecê. Foi quando eu ganhei chocolate de cupuaçu, pq seu aniversário. Então, curti a noite fazendo inveja angelical, quando outra mãe arranjei. E eu já havia rodopiado com Taz em ruídos autográficos de Nei Leandro. Com Sol, fiz a diferença; mesmo sendo marxista e do Mal. Esquilo, que nada! Desisto do degelo por um frio advindo do sul chileno. É a Maíra que se ancora em terra poti e aconchego-me em fusca insano para compartilhar alucinação coletiva. Eu caiu! E a noite vira. E o dia virá. É mais um dia no meu calendário a festejar. Amo
Mafalda, 8 de julho, 10jul09
Mafalda, 8 de julho, 10jul09
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Vou requisitar do chefe um cartão verde. Isso mesmo: verde. Servirá para regular a convivência, com as cláusulas contratuais assim redigidas:
Art. 1º: O cartão verde servirá para único fim: acesso de pessoas interessantes ao GEPA.
Art. 8.532: O cartão verde será disponibilizado por período indeterminado.
Art. 7.817.408.347: O uso do cartão poderá ser realizado em qualquer momento, mesmo que isto implique em intervenção das atividades gepaísticas.
Art. 26: As atividades de orientação poderão ser interrompidas, conforme Art. 7.817.408.347.
Art. 109.384: Os usuários do cartão verde serão selecionados pelos mestrandos e bolsistas IC mais queridos de minha pessoa - por pura conveniência.
Art. 9º: Ao cartão verde, o usuário associará automaticamente a maior cara de pau do mundo, o que o confortará dos abusos indiscriminados do serviço.
Art. 294: Para manutenção - ou não - da saúde mental dos usuários, o cartão verde provocará nenhuma sensação de culpa.
Art. 3º: Aos mestrandos exigir-se-ão pulinhos triplos.
Mafalda, quintas natalenses, 09jul09
Art. 1º: O cartão verde servirá para único fim: acesso de pessoas interessantes ao GEPA.
Art. 8.532: O cartão verde será disponibilizado por período indeterminado.
Art. 7.817.408.347: O uso do cartão poderá ser realizado em qualquer momento, mesmo que isto implique em intervenção das atividades gepaísticas.
Art. 26: As atividades de orientação poderão ser interrompidas, conforme Art. 7.817.408.347.
Art. 109.384: Os usuários do cartão verde serão selecionados pelos mestrandos e bolsistas IC mais queridos de minha pessoa - por pura conveniência.
Art. 9º: Ao cartão verde, o usuário associará automaticamente a maior cara de pau do mundo, o que o confortará dos abusos indiscriminados do serviço.
Art. 294: Para manutenção - ou não - da saúde mental dos usuários, o cartão verde provocará nenhuma sensação de culpa.
Art. 3º: Aos mestrandos exigir-se-ão pulinhos triplos.
Mafalda, quintas natalenses, 09jul09
terça-feira, 7 de julho de 2009
Há uns três dias escuto a mesma música.
Isso acontece comigo invariavelmente. Minto. Varia. Às vezes, por mais dias; às vezes, mais de uma música; às vezes, um mesmo compositor.
Mas é sempre o mesmo. A mesma repetição.
Arranjei, de minhas coleções infantis, uma moleca para presentear a cada achado. No primeiro dia desse último apego, o presente foi para nós - a ela e a mim.
Ontem cismei de entregar-me à autoria de minhas elucubrações, mas desisti ao ler comentários youtubianos sobre a jogatina franco-potuguesa na letra da música. Resolvi guardá-la, ainda que impaciente, para descobrir mais engenhosidades do moço compositor e não julgar-me antecipadamente injusta pelo oferecimento.
Aí, aparece-me você, na minha terceira jornada, a falar de convergências musicais. Lembrei automaticamente da histórica perdição do elevador: você perdida no museu francês.
Casou: hoje ela é sua.
Como diria Kamilinha (2009): Pronto. Era isso. Acabou. The end. Tem nada mais não. Fim.
Quer dizer [subindo os créditos]: Amo.
Mafalda, Pat.amar [2], 07jul09
Isso acontece comigo invariavelmente. Minto. Varia. Às vezes, por mais dias; às vezes, mais de uma música; às vezes, um mesmo compositor.
Mas é sempre o mesmo. A mesma repetição.
Arranjei, de minhas coleções infantis, uma moleca para presentear a cada achado. No primeiro dia desse último apego, o presente foi para nós - a ela e a mim.
Ontem cismei de entregar-me à autoria de minhas elucubrações, mas desisti ao ler comentários youtubianos sobre a jogatina franco-potuguesa na letra da música. Resolvi guardá-la, ainda que impaciente, para descobrir mais engenhosidades do moço compositor e não julgar-me antecipadamente injusta pelo oferecimento.
Aí, aparece-me você, na minha terceira jornada, a falar de convergências musicais. Lembrei automaticamente da histórica perdição do elevador: você perdida no museu francês.
Casou: hoje ela é sua.
Como diria Kamilinha (2009): Pronto. Era isso. Acabou. The end. Tem nada mais não. Fim.
Quer dizer [subindo os créditos]: Amo.
Mafalda, Pat.amar [2], 07jul09
domingo, 5 de julho de 2009
E mais uma vez, o Chico diz por mim.
Mafalda, O mar me arrebatou, 05jul09
_____________________________
Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Chico, Joana Francesa, 1973
Mafalda, O mar me arrebatou, 05jul09
_____________________________
Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise
Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
Chico, Joana Francesa, 1973
sábado, 4 de julho de 2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
Já não sei quantos anos foi seu aniversário em que filmamos as pessoas quando só queríamos uma foto. Nesse mesmo dia, o gato [não o Félix] era ainda bem pequeno, tanto que me assustou no último encontro, posto que crescido. Aquele aniversário beeeem natureba em que fiquei tão feliz por tomar suco ao invés de coca-cola e no qual as pessoas brincavam de quem montava o sanduíche mais atraentemente gostoso. Sinto que teu nome virou saudade. Feliz cotidiano. Amo.
Mafalda, gato Félix, 24abr09
Mafalda, gato Félix, 24abr09
Camelo janta em solidão num palco cru. Músicos desembestam em marcha instrumental. Confundo músicas e aguardo liberdade. Aparece-me sem sanfona, descaracterizando a parceria dominguística. Pouco mais de uma hora de ciranda, samba, forró, valsa. Ela gira em troça carnavalesca e eu me afogo além do que se vê. Sinto ausências e aproveito para me curtir. Ao lado, enxergo bobagens, carências, maus tratos. Canso e centro na leseira de um encontro fofinho. Observo no palco outro cara. Acho graça. Subverto a desordem e abro trincheira na vila do mar.
Mafalda, 21abr09
Mafalda, 21abr09
Poderia ter tido todas aquelas coisas, mas eram adiáveis. Não Mandacaru, que nem foi citado, talvez pq já passara da hora de nos vermos úteis. Todas elas só fizeram aquele sentido pq juntas. É minha última e mais nova tese, depois dos questionamentos "a que custos?": só dá pra ser junto - e que descobri por conta do empoderamento alheio. Aí, eu já nem via a lua ou fazia questão do sofá. Bastava saber que eu falar poderia fazer sentido, ainda mais com todos os silêncios últimos. Aparte isto, só a beleza das meninas em casa e a saudade dos que não foram. Amo.
Mafalda, 20abr09
Mafalda, 20abr09
Semana santa resolvi fazer uma estripulia: fui a Jampa. [Tou estudando com umas figuras que concluíram lá na UFPB e que me convidaram]. Apostei no resgate das lembranças, que, fazendo as contas, deu oito anos atrás. OITO! Nossa! E elas vieram, todas elas, desmentindo meus julgamentos contra minha falha memória. É bem verdade que as circunstâncias ajudaram. Numa noite, me vi no Bancários, umas ruas além do seu primeiro ap, mais pra dentro do bairro pras bandas do Cristo. Percurso do campus, parada do matagal, pista com carros velozes, susto com um carrefour (que apareceu do nada!) na esquina pra casa, a frente do seu prédio. E bastou pra eu sentir o gosto de salgados do Crato com simba de garrafa, em tardes quentes que só a muléstia, com altas conversas, esperando o sol baixar na hora da aula de fisiologia, na qual cochilaríamos em revezamento com a escrita de mais uma letra de música. Pra completar, sentei no chão da sala pra conversar com um moleque do Crato, amigo das meninas e tb seu: Leo. Lamentei não estar lá no mesmo período em que vc esteve, há pouco. Daí, pensei em quando vc apareceria por aqui de novo ou quando eu pararei de enrolar e irei à sua terra. Ah, que saudade, moça. Que saudade! Cuide-se. Amo. Bjim.
Mafalda, pessoa do Crato, 19abr09
Mafalda, pessoa do Crato, 19abr09
Couro de cor
Sombra de som de cor
De malmequer
De malmequer de bem
De bem me diz
De me dizendo assim, serei feliz
Serei feliz de flor
De flor em flor
De samba em samba em som
De vai e vem
De ver de verde ver
Pé de capim
Bico de pena, piu de bem-te-vi
Amanhecendo assim perto de mim
Perto da claridade da manhã
A grama, a lama, tudo
A minha irmã
A rã, o sapo, o salto de uma rã
Caetano, Rã
__________________________
Pra minha frô.
Mafalda, 19abr09
Sombra de som de cor
De malmequer
De malmequer de bem
De bem me diz
De me dizendo assim, serei feliz
Serei feliz de flor
De flor em flor
De samba em samba em som
De vai e vem
De ver de verde ver
Pé de capim
Bico de pena, piu de bem-te-vi
Amanhecendo assim perto de mim
Perto da claridade da manhã
A grama, a lama, tudo
A minha irmã
A rã, o sapo, o salto de uma rã
Caetano, Rã
__________________________
Pra minha frô.
Mafalda, 19abr09
Uma das coisas de que mais me arrependo do meu período de graduação foi ser extremamente certinha. Demorei tanto, tanto, para me ligar que as resenhas no setor eram interessantes, que quando menos pensei, elas rarearam. Do movimento estudantil em crise, nada espero. Se existente, as ações são realizadas individualmente ou em subgrupos, do verbo: alguns poucos alunos cavam espaços para todos nós. Pronta, vamos todos. Vejo-me ancestral no meio do auê. Quando penso que não, um chover que assusta e pipoca, para variar, a rede elétrica do cabaré. Desfaz-se um dos encontros mais profícuos dos últimos tempos. Em decadência, o que outrora demorei a perceber interessante me repele em ruídos de axé.
Mafalda, resenha no II, 17abr09
Mafalda, resenha no II, 17abr09
Encontro-me uma moleca. Uma menina levada, buliçosa, danada. É, para quem de longe me vê quieta, adianto: sou traquina e teimosa. A brutalidade, também reconhecida desde o horizonte, integra-me, em contradição à meiguice, do mesmo modo presente e tão quista por amigos distantes. Nessa combinação, vendo-me pivete. Reconheço-me, de outra forma, numa velhice concorrente e paradoxal. A menina, com alvoroço, recorre a explicações intencionais de disso-eu-não-preciso-sentir-e/ou-saber e dá um basta ingênuo. Metade dessas coisas é mesmo por preguiça aprendida ao Sol. Metade é por cuidado aprendido com meus desencontros, pelos quais assumo mais a antipatia dos setenta e quatro do que os conturbados vinte e seis, nas contas macondianas. Ora de uma mágica meninice fugaz, ora do embrulho de minha senilidade, urge desgosto pelo caricato estado das coisas. Digo do modo de relações sociais que estabelecemos, sobretudo individualistas. É, por vezes, digo, sobremaneira, assim me visto: uma criatura oblíqua. Discuto, discuto e discuto, nem que seja para desfazer argumentos ao léu, bem mais porque sinto prazer com o confronto. Não tenho razão quase sempre de todas as minhas racionalizações. Problema é que confiam mais nessas razões do que em mim; antes escutassem minhas modéstias, logo saberiam quão parcos são meus dizeres. Minhas memórias infantes passam além, bem longe. Cato-as quando as encontro e guardo-as com meus demais regalos, quase concretos, exacerbados pelos meus sorrisos frente a espetáculo circense, à boneca de pano e à literatura infantil. Sim, são boas as lembranças, bastante delas. As mais recentes, de quando em quando, agradam-me, posto que cautelosamente voláteis. Embora eu tenha cismado de registrar com escritos e fotografias, para garantir que não se esquivariam de vez. Rabisco inútil presságio. Eu sou o que eu faço. E isso toma quase todo meu tempo. É que faço muito nos últimos tempos. Os últimos tempos acontecem há uns cinco anos, desde que cismei de ser pesquisadora. Atraente rotina da ciência. Nociva rotina da ciência. Antes ela não me dissesse tanto quanto preciso. Depois de enxergar não há como desenxergar. Fui picada por alguns mosquito-dinossauros, o que faz de mim uma exigente bostinha. Com intervenção do povo da diferença, ouço músicas com desprendimento. É assim que tolero as músicas contemporâneas e me purifico com Milton cantarolando “nos bailes da vida”. Outrora, uma exigência só; por ora, até modinha me ganhou. Aprendi uma ruma de coisas com a última mudança. Desde a sapiente esperteza de quem cozinha até a descoberta de que tenho mais livros do que roupas. Muita gente discordaria, mas demorei a conhecer o que é lar. Minto, demorei a descobrir o que é cômodo, em todas as acepções do termo. Então, com a velha filosofia do concomitantismo-pragmático, aproveito e aconchego-me em mim. Sinto-me rotineiramente diferente, o que me impulsiona a prestar-me atenção. Com isso, encanto-me com a menina travessa que cativa umas pessoas por aí afora. Ainda me assusto quando penso assim, não acostumada que sou. Aí, recorro aos colos de mães, à delicadeza da amizade, aos vestidos rodados coloridos, à responsabilidade compulsiva, à Mafalda do Quino, à preguiça matinal, aos detalhes amelie-poulainianos, aos questionamentos cotidianos, às canções de Chico, aos fazeres em Mandacaru, às saudades vorazes mundanas e reconheço-me.
Mafalda, uma criatura prosaica, 15abr09
Mafalda, uma criatura prosaica, 15abr09
As contas estão mal feitas porque não entendo como funciona essa mudança de datas santificadas. No limite, conte um ano, com margem de uns dias a mais ou a menos. Tenho medo do significado dessa matemática. Fazia-se, há pouco, oito meses. Temos, pois, quase um ano? Nossa! Máquina registradora fazendo balanço. Quarta, quinta, sexta, sábado, domingo. Jampa na configuração turística. Jampa apresentando-se a nós de outro jeito. Jampa e suas marcas em nós. Jampa e nossos nós. Mandacaru. Paulinho. Meninos. Falésias de Coqueirinho. InToca. Filmes. Diálogos sob lua cheia. Sofá aconchegante. Silêncio. Dizeres. Mais disso: meninas em casa. Companhias indispensáveis. Eis nosso estar de junto. Um ano depois. Uma vez mais.
Mafalda, santa semana pessoense, 13abr09
Mafalda, santa semana pessoense, 13abr09
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...
Cartola, preciso me encontrar, 1976
_____________________________
30mar09
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...
Cartola, preciso me encontrar, 1976
_____________________________
30mar09
Com a conversa de beira de estrada, cismei de encontrar a condição disparadora. Comecei pelo óbvio – nada como ler Kosik e sentir-me pouco errante em atentar também para a aparência. A informação primeira foi precisa. Aniversário do velho, em data de hoje, um mês. Um diálogo qualquer, sem intenções ou desafios. Para não passar despercebido, incentivo a acordo paternal. Não foi essa a condição, o disparate foi de antes. Mas esse marco foi importante. Deixa o indicador mensal. Sem mudança de temperamento. Os ânimos estão irrequietos, mais por mim do que por outrem.
Mafalda, rumos, 04abr09
Mafalda, rumos, 04abr09
No meu entorno, depois de anos, cativou-me. Ainda bem que alguém nessa relação lembra-se de detalhes; eu, na minha inocente memória anuviada, só lembro que foi. Cultivo-a, após deliciosa descoberta, como flor. Às vezes, sem cuidado de perto por semanas, eu preciso contar com parceiros de bom grado. É ao par de casa que eu recorro e devo a alegria de seu estar. Tão eficiente – característica que você herdou – ao ponto de figurar em suas fotografias. Aí são eles que me alertam: ela é de arte. E, assim, embriago-me de sua presença. Criatura de musfotopoesia. É imprescindível bailarina em meu circo sem futuro. No meu teatro mágico, figura em sequência de cenas com escandalosa elegância. Em seus escritos, persigo a letra do entendimento. Conduz, por melhor dizer, a cadência dos tambores em meu bloco de carnaval. Pat.aqui. Pat.acolá. Princesa do mundo. Antes disso, rainha de si. Imprevisto amor. Leve amor. Pat.amar de recíproco amor.
Mafalda, Pat.amar, 31mar09
Mafalda, Pat.amar, 31mar09
Na última vez que te escrevi, exaltei as possibilidades de dias em que estaríamos próximas, mas não cogitei seu lugar aí. Era sempre um retorno, uma volta, um saudosismo por um trem que nem de todo foi bom para você. Inculquei com meu palavreado desde então. Resolvi que ia dizer de outro jeito, com votos que não distorcem meu desejo por seu bom-viver cotidiano. É regalo pensar-te ousadia. Quantos não o fariam, afastado o receio? Labuta desdenhosa para muitos, arriscar o não-saber serve à coragem de seu estar. É preciso ver-te grandeza, para além de estatura. Admiro o aí. E sustento com o que sempre encontrarás por aqui. Feliz cotidiano procê. Amo.
Mafalda, Cristal, cristaleira, cristalina, 31mar09
Mafalda, Cristal, cristaleira, cristalina, 31mar09
Desde o tempo do conhecer, estar junto é regalo. Apesar de que demoramos quase um ano para nos descobrir. Costumeiras tardes quaisquer. Eu sou lenta; você não foi ágil. Não olhávamos para o entorno; ou nos abastecíamos com carinho de quem mais perto estivesse. Outro dia, lembrei quando a notei pela primeira vez. Um disse-me-disse nos corredores do três. Mania minha, fui catar de perto. Duas, três, quatro pessoas, não recordo, ao seu redor, num aconchego que eu não pude oferecer. Doeu em mim. Por perto ficamos. Já não serviam só as tardes; as noites também eram nossas. Colamo-nos, como podíamos, por bons – e hoje curtíssimos – três anos, com intervalos de suspiros nada doces. No extremo, a caríssima advertência para vivermos. E o fizemos. Encanto em cada estar. Talvez as circunstâncias, talvez as contingências, talvez as comodidades. Não acho teorias, nem vou explanar argumentos ou tentar explicações mirabolantes. Acontecemos. Com o cuidado a marcar o dia-a-dia. Tão presente que nem lembro exatamente a última vez que a vi de perto. Até porque a lida tem sido amansada por seu estar de junto. Seja em lembranças gostosas, por passagens toscas, no colo de mãe, em venturas caseiras, com recadinhos cotidianos e pormenores tecnológicos. Juntando, pesa a carga de um sentimento que sedex algum esperaria até as dez para entregar. Urgente como somos. Na cadência do amor.
Mafalda, Srta. Cury, 31mar09
Mafalda, Srta. Cury, 31mar09
Quantas tarefas simultâneas, por essa vez? Suas referências, à sua parecença, por ora, convivem bem com esse ritmo, apesar de reclamações alheias; noutras, com mais frequência nos últimos tempos, pedem arrego. E tu, pequena? E essa afobação? Cronologicamente, com um pouquinho – só um pouquinho – a mais que você, tendo vivido – bem vivido – a infância, presenteio-me impulsivamente com saudosismo. Nas últimas, fui bem ao meu infante estar. A da vez foi uma caixinha de massa de modelar. Esta, eu quero dividir contigo e mais umas pareias. Criatura, cuida-te! Ou tu sentirás saudades do que não foi? Delicia-te de ti. Eu insisto. Delicia-te de ti.
Mafalda, Ruim não; do Mal [2], 30mar09
Mafalda, Ruim não; do Mal [2], 30mar09
Falta-me habilidade para lidar com instrumentos cortantes. Arma branca, para que te quero? Mesmo uma rosca de arejador revolta-se a talhar-me. Perco a identidade, se me exigem os indicadores para uma segunda via. Minhas marcas já não são as mesmas. De concreto, eu e meus descuidos de mim.
Mafalda, 30mar09
Mafalda, 30mar09
segunda-feira, 30 de março de 2009
Sonhei com casamento de uma prima num anfiteatro do Jardim Botânico do Rio, com cobertura de TV. Nele, ela usava um anel meu, único prata dentre os dourados. Seu irmão sentia falta de nós, após fotos da nossa infância expostas no início da cerimônia. Correria para sair dali. Fuga para não querer. Uma tia da outra parte o ajuda. Invento afazeres, mais fugas. Retorno quando o jantar esta posto. No meu lugar reservado, a noiva. Cede-o, sento-me ao lado de pai, como em todo casório. Uma banda tocava na festa. No final, ao pé do palco, encontro-a o escutando desde o começo. Ao fim do espetáculo, ele falava conosco. Sem nada a dizer, porque acabara de voltar e mal vi alguém tocar, pergunto-a: tocou?
Mafalda, 29mar09
Mafalda, 29mar09
Não foi a primeira vez que o vi em sala de aula. Mas foi a primeira que assisti na graduação. Com todo rapport possível, posto as contingências ambientais. Com sua fala, apostaram diálogo que possa provocar aproximações voluntárias. Babando, a moça. Eu, idem. Como de costume.
Mafalda, Epifania nº 49, 26mar09
Mafalda, Epifania nº 49, 26mar09
domingo, 15 de março de 2009
Há um mês. Foi um mês rápido porque menor de todos. Foi um mês corrido porque mais tarefas que o tempo me permitia ver. Foi um mês desgastante porque mais mudanças do que as que me cabiam. Mas um mês. Não conto a relatividade dos últimos vinte oito dias. Foram exatos vinte e oito dias. Triste? Sim. Amargo? Sim. Cansativo? Sim. Mas não foram só vinte e oito dias. Foram os últimos vinte e oito. Sem nenhuma boa previsão de mudanças. De abertura. De desculpas. De fala. De resolução. Não sei por quantos dias isso durará. Nem conto em contar. Só lembrei porque registrado em alguma esquina de minha memória desordenada.
Mafalda, 15mar09
Mafalda, 15mar09
Mudanças estariam previstas nas suas estatísticas de 2010, caso a ocorrência tivesse trágico fim. Algumas variáveis concorrem para enfatizar suas hipóteses. Domingo. 18-19h. Talvez álcool. Talvez outra droga. Dois dados, de alta validade, porém, perderiam peso. Mulheres. A possível vítima. E a futura acusada. Arma sim, porém, branca. Especificamente uma faca de cozinha. Daquelas que mal cortam quando se quer almoçar um filé. Sem ocorrência, vale o susto, a chamada, a trégua. Seu bilhete digital mereceu o ctrl+c ctrl+v. Aquieta-se, alma enferma!
Mafalda, 15mar09
Mafalda, 15mar09
Aconteceu de um jeito diferente do que eu previ, como a totalidade das coisas pensadas por mim. Eu não vejo graça nisso. Se eu penso em três possibilidades para algo acontecer, aparece-me o feito em quarta expressão. Sim, não ou talvez? Um dia, pode ser. Esgoto-me em que dia pode ser. Hoje, amanhã ou depois? Foi ontem e eu nem senti.
Mafalda, 15mar09
Mafalda, 15mar09
Deve ser por isso que ficamos juntas. Uma pessoa tão só que sozinha fica por escolha é compatível com uma louca que se vê em par em encontros desvirtuados. Chego a me questionar quanto somos presentes. Ou somos tanto que, quando não estamos, metade de mim escafedeu-se. Preciso estar junto e perto. Com toda a vantagem de viver juntinho. Com os encontros que se permitem. Deus – apelo descabido para uma marxista – que me livre de mais uma que inventa de cuidar por essa estratégia. Já me basto afastando-me de mim.
Mafalda, do cuidado de longe, 15mar09
Mafalda, do cuidado de longe, 15mar09
Do chefe ouço a história do velho. Um jeito manso de contar a história de um pensador que foi, não se engane, pessoa. Com suas incoerências, seus alardes, sua arrogância.
Mafalda, velho Marx, 13mar09
_____________________________________
Saiba:
Todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Saiba:
Todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Saiba:
Todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Saiba:
Todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Saiba:
Todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé
Saiba:
Todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você
Eu e você
Eu e você
Arnaldo Antunes, Saiba
Mafalda, velho Marx, 13mar09
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Saiba:
Todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Saiba:
Todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Saiba:
Todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Saiba:
Todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Saiba:
Todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé
Saiba:
Todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você
Eu e você
Eu e você
Arnaldo Antunes, Saiba
Natureza morta adorna com certa freqüência títulos de quadros em exposição. Uma das últimas onde eu fui, se bem me lembro, em Brasília, tinha lá: um cesto, frutas, sobre a mesa. Parcas cores. Horrorosa criação. Como quase todas as naturezas mortas antes vistas. Gosto mesmo é de natureza viva. Acontecendo. Com cores. Verde. Flores.
Mafalda, pulo do gato, 11mar09
Mafalda, pulo do gato, 11mar09
Deu-se conta de que não estava entendendo nada dos seus sentimentos em relação à pessoa que desejava & detestava. Desejava & detestava, exatamente com esse “&” de Cia. Ltda., porque se sentia enlaçado, laçado e cansado dessa ligação como se houvesse entre ambos um pacto de feliz infelicidade.
O fato é que sofria. Sofria e amava. Amava e detestava o objeto que amava. Mais complexo ainda: estava apaixonado pelo objeto de seu sofrimento. Já nem sabia se amava mais do que sofria, como o viciado o vício. Mas que diabo de amor é esse? (se cobrava), por que tem que ser essa coisa tão desagradável? (se punia), enquanto ia anotando umas palavras no primeiro pedaço de papel à sua frente. E foi se dando conta que isto era uma rotina, uma mania. Volta e meia pegava um pedaço de folha qualquer e ia anotando as características positivas e negativas do seu amor. Era como se anotasse para se liberar. Se escrevesse aquilo e deixasse ao léu, aquilo eram despetalados espinhos que iriam ficando fora da ferida. Ou, talvez, fosse um modo de elaborar os confusos sentimentos. Havia lido num manual americano, desses que mandam anotar e listar o que a pessoa pensa ou aquilo que deve se esforçar por obter, para assim visualizar e clarear seus contraditórios sentimentos e vontades, e então ia anotando.
Mas quanto mais anotava (aqui e ali os fragmentados sentimentos e papéis iam se disseminando dentro de livros, agenda, entre recibos de dívidas e dúvidas), quanto mais anotava o que achava positivo e negativo, mais se desesperava porque a coluna do negativo só crescia. Mas quanto mais cresciam os atributos negativos da pessoa amada que racionalmente dissecava, mais preso a ela se sentia. Então olhava a lista, como quem faz um rol de compras, e se indagava: “Diacho, por que não acabo logo com essa relação?”.
Topou com uma dessas listas, que havia escrito há meses. Os dados negativos estavam lá:
Me provoca insônia
Me deixa em ansiedade diante do telefone
Me transformou numa pessoa insegura
Tem uma estranha oscilação de humor
Me faz sentir ridículo
É muito imprevisível
Inibe meus afetos e palavras
Me faz sentir rejeitado
Tem umas coisas tão infantis
Não se interessa por minhas coisas
É autocentrada
Na verdade, é imatura
Só quer receber
Mas aí, contraditoriamente, começava a se lembrar de certos momentos, de detalhes do corpo, ou de alguns instantes de prometida paz e felicidade. Quem sabe se...
Vou pegar o telefone, não, telefone não é o instrumento certo para isto, tem que ser pessoalmente essa conversa, aliás, vou pegar o telefone, mas é para marcar logo um encontro, dizer que precisamos ter uma conversa pessoal e depois, cara a cara, dizer, enfim, que pensei muito que é melhor a gente parar por aqui etc.
Telefonou. Marcou. Foi, viu e não venceu nem convenceu.
Mas é a última vez, foi se dizendo na volta para casa, como se quisesse se convencer de que a derrota não havia sido em vão.
Não foi a última vez. Outras últimas vezes se sucederiam. Precisava ser vitoriosamente derrotado várias outras vezes, como se quisesse gastar o corpo alheio no desencontro dos encontros.
E a lista de defeitos e qualidades do objeto desejado & detestado ia refazendo e reescrevendo, como se, pela reinscrição, a tinta fosse se gastando, como se assim os sentimentos fossem se exaurindo, se apagando, se repetindo, se anulando, como se a melhor forma de se libertar do infeliz amor fosse sofrê-lo até o fim, ou, então, até o momento em que seu instinto de sobrevivência o fizesse, subitamente, romper com tudo e, finalmente, libertar-se.
Affonso Romano de Sant´Anna, Variações sobre amor infeliz, Tempo de delicadeza, 2007
O fato é que sofria. Sofria e amava. Amava e detestava o objeto que amava. Mais complexo ainda: estava apaixonado pelo objeto de seu sofrimento. Já nem sabia se amava mais do que sofria, como o viciado o vício. Mas que diabo de amor é esse? (se cobrava), por que tem que ser essa coisa tão desagradável? (se punia), enquanto ia anotando umas palavras no primeiro pedaço de papel à sua frente. E foi se dando conta que isto era uma rotina, uma mania. Volta e meia pegava um pedaço de folha qualquer e ia anotando as características positivas e negativas do seu amor. Era como se anotasse para se liberar. Se escrevesse aquilo e deixasse ao léu, aquilo eram despetalados espinhos que iriam ficando fora da ferida. Ou, talvez, fosse um modo de elaborar os confusos sentimentos. Havia lido num manual americano, desses que mandam anotar e listar o que a pessoa pensa ou aquilo que deve se esforçar por obter, para assim visualizar e clarear seus contraditórios sentimentos e vontades, e então ia anotando.
Mas quanto mais anotava (aqui e ali os fragmentados sentimentos e papéis iam se disseminando dentro de livros, agenda, entre recibos de dívidas e dúvidas), quanto mais anotava o que achava positivo e negativo, mais se desesperava porque a coluna do negativo só crescia. Mas quanto mais cresciam os atributos negativos da pessoa amada que racionalmente dissecava, mais preso a ela se sentia. Então olhava a lista, como quem faz um rol de compras, e se indagava: “Diacho, por que não acabo logo com essa relação?”.
Topou com uma dessas listas, que havia escrito há meses. Os dados negativos estavam lá:
Me provoca insônia
Me deixa em ansiedade diante do telefone
Me transformou numa pessoa insegura
Tem uma estranha oscilação de humor
Me faz sentir ridículo
É muito imprevisível
Inibe meus afetos e palavras
Me faz sentir rejeitado
Tem umas coisas tão infantis
Não se interessa por minhas coisas
É autocentrada
Na verdade, é imatura
Só quer receber
Mas aí, contraditoriamente, começava a se lembrar de certos momentos, de detalhes do corpo, ou de alguns instantes de prometida paz e felicidade. Quem sabe se...
Vou pegar o telefone, não, telefone não é o instrumento certo para isto, tem que ser pessoalmente essa conversa, aliás, vou pegar o telefone, mas é para marcar logo um encontro, dizer que precisamos ter uma conversa pessoal e depois, cara a cara, dizer, enfim, que pensei muito que é melhor a gente parar por aqui etc.
Telefonou. Marcou. Foi, viu e não venceu nem convenceu.
Mas é a última vez, foi se dizendo na volta para casa, como se quisesse se convencer de que a derrota não havia sido em vão.
Não foi a última vez. Outras últimas vezes se sucederiam. Precisava ser vitoriosamente derrotado várias outras vezes, como se quisesse gastar o corpo alheio no desencontro dos encontros.
E a lista de defeitos e qualidades do objeto desejado & detestado ia refazendo e reescrevendo, como se, pela reinscrição, a tinta fosse se gastando, como se assim os sentimentos fossem se exaurindo, se apagando, se repetindo, se anulando, como se a melhor forma de se libertar do infeliz amor fosse sofrê-lo até o fim, ou, então, até o momento em que seu instinto de sobrevivência o fizesse, subitamente, romper com tudo e, finalmente, libertar-se.
Affonso Romano de Sant´Anna, Variações sobre amor infeliz, Tempo de delicadeza, 2007
Raul estava deitado no chão da cozinha. Ele sempre me lembrava um lago. Quieto feito um lago, o branco da roupa destacado contra os ladrilhos escuros. Olhava para o teto, como se não houvesse teto. Apontou o bule branco com as dozes xícaras coloridas em volta, pedindo que não deixasse ninguém quebrá-las. Todas correm perigo, disse. Para tranqüilizá-lo, sentei a seu lado. Tremíamos. Pensei em colocar a cabeça dele no meu colo, tomar suas mãos, cantar, fazer carinhos. Mas só consegui ficar muito próxima. De alguma forma, eu queria dizer que tudo aquilo importava pouco. Se soubéssemos controlar a nós mesmos, ao nosso terror, e poupar o gasto exagerado de tudo que tínhamos armazenado, nada aconteceria. Amanhã, depois, dentro de uma semana, um mês, os cães morreriam e poderíamos novamente abrir a casa, sair para o sol. Lera um dia em algum lugar que a raiva corrói aos poucos o cérebro deles. Não resistem muito. Queria dizer a Raul que pensasse no tempo que fatalmente passaria, como sempre passa.
Caio Fernando Abreu, [Trecho de] Dodecaedro, Triângulo das águas, 1983/2007
Caio Fernando Abreu, [Trecho de] Dodecaedro, Triângulo das águas, 1983/2007
Foram duas ou três palavras. Bastaram. A beleza dos encontros está na sua significação. Sem importar se foram dois minutos antes do compromisso. Sem custar dois passos à frente. Histórias. Comuns. Iguais. Em suas utopias. Mulheres. A beber de Caio Fernando Abreu o que se doa.
Foram três ou quatro palavras. Não bastam. Com a significação que faz importar. E os custos de uma utopia a alimentar encontros. Histórias. Dessemelhantes. Para fazer-nos presentes. Presentear-nos mulheres. Em contos – romances, novelas, ah, sei lá! – de Caio Fernando Abreu, que doem.
Mafalda, intervalos, 10mar09
Foram três ou quatro palavras. Não bastam. Com a significação que faz importar. E os custos de uma utopia a alimentar encontros. Histórias. Dessemelhantes. Para fazer-nos presentes. Presentear-nos mulheres. Em contos – romances, novelas, ah, sei lá! – de Caio Fernando Abreu, que doem.
Mafalda, intervalos, 10mar09
Obrigada por ousar. Foi o que eu a disse, há pouco mais de um ano – feito em 04 de março passado. Desde então, a vejo crescendo. Amadurecida na cadência que se permite. Com os limites que se impôs. O que me fez vê-la e à sua prática de modo distinto. Eu a acompanhei como quem aguardasse uma flor desabrochar. Tonta, eu. Nesse intervalo, mal a notei. Pois ela foi rebento o tempo inteiro. Sempre atenta. E se deixou presente num beijo que só veio depois. Como ela podia fazer. Como eu a permiti, ante a negação da face. Em forma de recado. Carinho em tuas mãos.
Mafalda, Epifania nº 32, 09mar09
Mafalda, Epifania nº 32, 09mar09
segunda-feira, 9 de março de 2009
Eles não sabem.
Não querem saber.
Preferem menos, pouco, muito pouco.
Não souberam ouvir, não aprenderam a pensar, mal conseguem sentir.
À margem, na superfície, no raso: é lá que estão.
Tu?
Semente em bico de passarinho, folha solta em redemoinho, rastro de borboleta.
Além, muito além...
Lá, nas profundezas abissais do cuidado e do respeito, do mimo e do carinho, de um jeito de ser boba e paciente, que não precisa chegar a Zé Pequeno. Basta lembrar mais do seu umbigo.
Amo.
E isso é de muitos.
Sol, 06mar09
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E eu ainda viro epifania alheia...
Mafalda, 09mar09
Não querem saber.
Preferem menos, pouco, muito pouco.
Não souberam ouvir, não aprenderam a pensar, mal conseguem sentir.
À margem, na superfície, no raso: é lá que estão.
Tu?
Semente em bico de passarinho, folha solta em redemoinho, rastro de borboleta.
Além, muito além...
Lá, nas profundezas abissais do cuidado e do respeito, do mimo e do carinho, de um jeito de ser boba e paciente, que não precisa chegar a Zé Pequeno. Basta lembrar mais do seu umbigo.
Amo.
E isso é de muitos.
Sol, 06mar09
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E eu ainda viro epifania alheia...
Mafalda, 09mar09
Los hombres somos una subespecie de animales, casi estúpidos, insensitivos, inadecuados completamente para el amor, creados por la mujer para ponerse al servicio del ser inteligente y sensitivo que ellas representan.
Diego Rivera, [Trecho de reportagem obtido em exposição] Frida y Diego: vidas compartidas, Centro Cultural Palacio La Moneda, 2008
Diego Rivera, [Trecho de reportagem obtido em exposição] Frida y Diego: vidas compartidas, Centro Cultural Palacio La Moneda, 2008
Destruída emocionalmente. Fatigada fisicamente. Afogada em mágoas. Doída de reclamar do vento. Sem prazo que me fizesse levantar. Sem circo que me fizesse rir. Sem encontro que me fizesse empolgar. Sem alimento que me fizesse degustar. Sem risco que me fizesse escrever. Sem ser.
Mafalda, domingo, 08mar09
Mafalda, domingo, 08mar09
Fui para o tempo sem relógio. O encontrei na hora do atraso. Peguei um tiquinho de Angola, sentei com a galera e assisti ao espetáculo que falou da correria, do dia-a-dia, da velhice, de encontros singelos sem tempo para ser. No auge de minha lembrança de ti, a personagem se questiona: para que tempo, se eu não tenho espaço?
Sabe de uma coisa? É que eu cheguei tão chegando num andamento devagar... mas foi bom, porque vi em três segundos a alegria, o sorrisão, os três pulinhos e o abraço apertado de três meses de saudade gigante.
Sabe o que mais? É que... quero mais!
Bjim, frô.
Mafalda, é tempo de Raquel, 07mar09
Sabe de uma coisa? É que eu cheguei tão chegando num andamento devagar... mas foi bom, porque vi em três segundos a alegria, o sorrisão, os três pulinhos e o abraço apertado de três meses de saudade gigante.
Sabe o que mais? É que... quero mais!
Bjim, frô.
Mafalda, é tempo de Raquel, 07mar09
sábado, 7 de março de 2009
O meu herói menino tem as suas aventuras aprazadas fora da sossegada terra onde vivem os pais, suponho que uma irmã, talvez um resto de avós, e uma parentela misturada de que não há notícia.
(...)
Quando depois passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos.
Saramago, [Trechos de] A maior flor do mundo, 2001/2008
(...)
Quando depois passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos.
Saramago, [Trechos de] A maior flor do mundo, 2001/2008
Balzac vai para Joyce. Na mesma leva de Vinicius para Sol, junto com a revista dela. Quem sabe com a arrumação - se desta vez cá eu estiver - devolvo os cds e dvds alheios. Desentoco os livros infantis, como a aparição epifânica de Saramago. E viro mais noites com poemas e prosas de bom gosto. Aì, acharei o haver, junto com um papel amassado, rabiscado, a falar de copacabana. E sentirei que tem bons sentimentos soltos no ar, salpicados em flores de canteiros, que combinam com a cor que se fizer.
Mafalda, 07mar09
______________________________________________
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius, O haver, 1962 [Texto com trechos diferentes do publicado no livro Poemas esparsos. Este, obtido em 07mar09, de http://www.releituras.com/viniciusm_haver.asp]
Mafalda, 07mar09
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Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius, O haver, 1962 [Texto com trechos diferentes do publicado no livro Poemas esparsos. Este, obtido em 07mar09, de http://www.releituras.com/viniciusm_haver.asp]
A última vez que a vi empolgada como esteve hoje foi quando começou o atual namoro. Minto. Nem sei se àquela altura ela estava com o furor de hoje. Materiais, aulas, teorias, explicações e a prática. Anda aprendendo, minha pequena. E eu tão cansada que nem de todo fui atenção. Quiçá eu a veja assim quando se deparar com o mundo. Aí esqueço a dúvida, a dor, a agonia, a exasperação.
Mafalda, 05mar09
Mafalda, 05mar09
quinta-feira, 5 de março de 2009
quarta-feira, 4 de março de 2009
Parecia almoço de domingo, mas era quarta. Na televisão, ainda não era sessão de laranjas sem fim. Quando criança, eu esperava o filme começar assistindo o mesmo desenho animado de hoje, passando para o canal vizinho. Pica-pau ganhou a tela com a sacanagem de sempre. A última vez que isso aconteceu, há alguns meses, ele estava na sala comigo. Assistiu, morreu de rir e se perguntou em voz alta a moral da historia, indignado porque o pássaro sempre se dava bem, invariavelmente, com toda ruindade que por vezes lhe cabe. Aprendi muito com o velho. Poderia não ser passado.
Mafalda, digam-lhe que estou tristíssimo, 04mar09
Mafalda, digam-lhe que estou tristíssimo, 04mar09
Parece que nasci para dançar cueca. Com lenços, num compasso sutil, a acenar ao par.
Todavia, teimo em aprender tango. Num andamento de descarada sedução.
Que história é essa, menina?
Pois é.
Será que negar o sutil é o meu avesso ao caráter hereditário na história?
Pode uma seguidora da dialética se prender em definições apriorísticas?
Eu quero é me enxergar.
Mafalda, do cansaço, 03mar09
__________________________________
Supõe que já cruzamos pela vida
Mas nos deixamos sempre para trás
Porque eu andava sempre na avenida
E tu corrias pelas transversais
Supõe que num comício colorido
A praça, enfim, vai nos conciliar
Supõe que somos do mesmo partido
Supõe a praça a se inflamar
Bandeiras soltas pelo ar
E tu começas a cantar
Supõe que eu vibro, comovida
E supõe que eu sou tua canção
Supõe que te apresentas como amigo
E me perguntas nome e profissão
Comentas que faz sol, ou tem chovido
Ou outro comentário sem razão
Supõe que eu te observo, compreensiva
Porém não tenho nada a acrescentar
Supõe que falas coisas dessa vida
Como querendo aparentar
Que tu tens muito o que contar
Que és um tipo original
Supõe que rio, divertida
E supõe que eu sou tua canção
Supõe que nós marcamos um cinema
Mas chegas lá pro meio da sessão
Pois teu trajeto tem algum problema
Que só te leva numa direção
Supõe que agora a tela me ilumina
Tu ficas assistindo ao meu perfil
Supõe a minha mão tão recolhida
Que não percebe a tua mão
Que não percebe a minha mão
Que não é sim, que não é não
Supõe que eu sigo distraída
E supõe que eu sou tua canção
Supõe que a boa sorte é nossa amiga
E que das 3 às 5 pode ser
Meu pai acaba de dobrar a esquina
E tu vens me encontrar, enfim mulher
Supõe que sem pensar nos abraçamos
Supõe que tudo está como previmos
É a primeira vez que nos amamos
Supõe que falas sem parar
Supõe que o tempo vem e vai
Supõe que és sempre original
Supõe que nós não nos despimos
E supõe que eu sou tua canção
Chico, Supõe [versão do escrito de Silvio Rodrigues], 1982
Todavia, teimo em aprender tango. Num andamento de descarada sedução.
Que história é essa, menina?
Pois é.
Será que negar o sutil é o meu avesso ao caráter hereditário na história?
Pode uma seguidora da dialética se prender em definições apriorísticas?
Eu quero é me enxergar.
Mafalda, do cansaço, 03mar09
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Supõe que já cruzamos pela vida
Mas nos deixamos sempre para trás
Porque eu andava sempre na avenida
E tu corrias pelas transversais
Supõe que num comício colorido
A praça, enfim, vai nos conciliar
Supõe que somos do mesmo partido
Supõe a praça a se inflamar
Bandeiras soltas pelo ar
E tu começas a cantar
Supõe que eu vibro, comovida
E supõe que eu sou tua canção
Supõe que te apresentas como amigo
E me perguntas nome e profissão
Comentas que faz sol, ou tem chovido
Ou outro comentário sem razão
Supõe que eu te observo, compreensiva
Porém não tenho nada a acrescentar
Supõe que falas coisas dessa vida
Como querendo aparentar
Que tu tens muito o que contar
Que és um tipo original
Supõe que rio, divertida
E supõe que eu sou tua canção
Supõe que nós marcamos um cinema
Mas chegas lá pro meio da sessão
Pois teu trajeto tem algum problema
Que só te leva numa direção
Supõe que agora a tela me ilumina
Tu ficas assistindo ao meu perfil
Supõe a minha mão tão recolhida
Que não percebe a tua mão
Que não percebe a minha mão
Que não é sim, que não é não
Supõe que eu sigo distraída
E supõe que eu sou tua canção
Supõe que a boa sorte é nossa amiga
E que das 3 às 5 pode ser
Meu pai acaba de dobrar a esquina
E tu vens me encontrar, enfim mulher
Supõe que sem pensar nos abraçamos
Supõe que tudo está como previmos
É a primeira vez que nos amamos
Supõe que falas sem parar
Supõe que o tempo vem e vai
Supõe que és sempre original
Supõe que nós não nos despimos
E supõe que eu sou tua canção
Chico, Supõe [versão do escrito de Silvio Rodrigues], 1982
Eu lembrei desse texto.
Você já não estava.
Você insiste.
Eu confesso - escrito de Seu Mario.
Que fazer?
Ouvir Chico.
Mafalda, 03mar09
__________________________________________
Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Quintana, Confissão, 1990
Você já não estava.
Você insiste.
Eu confesso - escrito de Seu Mario.
Que fazer?
Ouvir Chico.
Mafalda, 03mar09
__________________________________________
Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Quintana, Confissão, 1990
Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar tentamos inventar
Tentamos inventar tentamos
A felicidade a felicidade
A felicidade a felicidade
Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões
Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados
Ser
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Caetano, Saudosismo, 1998. Obtido do site oficial em 01mar09.
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar tentamos inventar
Tentamos inventar tentamos
A felicidade a felicidade
A felicidade a felicidade
Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões
Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados
Ser
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Caetano, Saudosismo, 1998. Obtido do site oficial em 01mar09.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
É, Mal-dita, é preciso ter força, raça, gana. Parece que o Milton, eu, você e... quem mais pensa assim? Sabe aquela tua supervisora de estágio, que você morre de se gabar de tê-la? Ela também. Hoje ela chamou isso de resiliência.
Mafalda, Ruim não; Do Mal, 28fev09
________________________________
Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta
Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive apenas aguenta
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida
Milton Nascimento & Fernando Brant, Maria, Maria
Mafalda, Ruim não; Do Mal, 28fev09
________________________________
Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta
Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive apenas aguenta
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida
Milton Nascimento & Fernando Brant, Maria, Maria
No compasso das paródias do Quanta ladeira...
Sabe você o que é insônia?
Não sabe, eu sei.
Mafalda, 27 já 28, 27fev09
__________________________________
Você é muito mais que eu sou
Está bem mais rico do que eu estou
Mas o que eu sei você não sabe
E antes que o seu poder acabe
Eu vou mostrar como e por quê
Eu sei, eu sei mais que você
Sabe você o que é o amor?
Não sabe, eu sei
Sabe o que é um trovador?
Não sabe, eu sei
Sabe andar de madrugada
Tendo a amada pela mão?
Sabe gostar? Qual sabe nada
Sabe? Não
Você sabe o que é uma flor?
Não sabe, eu sei
Você já chorou de dor?
Pois eu chorei
Já chorei de mal de amor
Já chorei de compaixão
Quanto a você, meu camarada
Qual o quê, não sabe, não
E é por isso que eu lhe digo
E com razão
Que mais vale ser mendigo
Que ladrão
Sei que um dia há de chegar
Isso seja como for
Em que você pra mendigar
Só mesmo amor
Você pode ser ladrão
Quanto quiser
Mas não rouba o coração
De uma mulher
Você não tem alegria
Nunca fez uma canção
Por isso a minha poesia
Ha! Ha! Você não rouba, não
Vinicius & Carlos Lyra, Sabe você
Sabe você o que é insônia?
Não sabe, eu sei.
Mafalda, 27 já 28, 27fev09
__________________________________
Você é muito mais que eu sou
Está bem mais rico do que eu estou
Mas o que eu sei você não sabe
E antes que o seu poder acabe
Eu vou mostrar como e por quê
Eu sei, eu sei mais que você
Sabe você o que é o amor?
Não sabe, eu sei
Sabe o que é um trovador?
Não sabe, eu sei
Sabe andar de madrugada
Tendo a amada pela mão?
Sabe gostar? Qual sabe nada
Sabe? Não
Você sabe o que é uma flor?
Não sabe, eu sei
Você já chorou de dor?
Pois eu chorei
Já chorei de mal de amor
Já chorei de compaixão
Quanto a você, meu camarada
Qual o quê, não sabe, não
E é por isso que eu lhe digo
E com razão
Que mais vale ser mendigo
Que ladrão
Sei que um dia há de chegar
Isso seja como for
Em que você pra mendigar
Só mesmo amor
Você pode ser ladrão
Quanto quiser
Mas não rouba o coração
De uma mulher
Você não tem alegria
Nunca fez uma canção
Por isso a minha poesia
Ha! Ha! Você não rouba, não
Vinicius & Carlos Lyra, Sabe você
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
A gente não teve muito tempo por perto. Mas você veio acompanhada. E apareceu num bom tempo. Num tempo em que eu me aproximava de bichos. Um avanço para quem é insensível a certas formas de existência. Talvez nem fosse lá um bom tempo. Foi quando fiquei dias e dias distante. Você logo crescia. E desde um retorno meu, crescia só. Impressionante. Juntava a proximidade com o desagrado de vê-la só. E eu já começava a arrumar desculpa para encontrá-la. Atena. Nome de deusa. Homenagem descabida para uma cachorra baleia. Se não fosse fantasia, talvez tu resistisses ao mais. Nem que fosse por se apropriar do apelido que eu dei. Baleia resistia a sertão e tu mal suportaste um quintal. Sofrida. Dói-me buscar o número do zoonoses. Mas, feito! Por vezes eu odeio minha eficiência.
Mafalda, cachorra baleia, 26fev09
Mafalda, cachorra baleia, 26fev09
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz
Vinicius & Carlos Lyra, Marcha de quarta-feira de cinzas, 1966
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz
Vinicius & Carlos Lyra, Marcha de quarta-feira de cinzas, 1966
Eu não achei a música. Ainda que tenha usado o mais eficaz dos buscadores. Bom mesmo foi você achar legal eu cantar. Vê se pode? Tananan... tananan... E não foi a trilha sonora usada nos romances. Aquela data de quando esses romances nem existiam. Eu nunca que pensei que conversaríamos tanto. Quer dizer, pensei. Mas não com a mesma eficiência do diálogo solto e “de verdade” noutro dia em sua casa. Meus afetos sentem alívio com essas aspas. Com isto, irei a mais duas sessões à AAVA. Quer dizer, solto não, porque tinha mote mui bem definido. Foi alinhavado com todos os não entendimentos. E, sem prerrogativas, tentamos contorná-los com todos os porquês. Somos nós. Daí, não há o que esperar. Ou há, quem sabe? É o inesperado que sempre está. Acontecido numa desordem que nos faz aproximar. Daí, mesmo textos delicados perdem a sutileza, quando pensam duas. Quando pesamos nós duas. Ele não entenderia. Ela, talvez lá, no tempo da paciência – que demorará mais para ela do que para mim –, creio eu. Ditos. Muitos ditos. Para desabafar. Para desafogar. Para confirmar. Para até a tragicomédia ganhar graça no meio do auê. Rimos, em cada entretempo – gostei dessa palavra! – do duelo que poderá ser de titãs. Quiçá numa dimensão acadêmica (futuramente, após doutoramento em doutorado [o.O] em Psicologia!), quando meus amigos me arranjarão os cargos esperados pela minha mãe. No plural. Para mim. E para você. Marcos? Não, não o nome próprio, boba! Marco, no plural, marcos. Tá, não o nome próprio, boba! Marcos, há muitos. Os meus. Os seus. Mas o estopim foi mesmo daquela ordem. Daí, moendo como nós fazemos, encontramos arestas até hoje. Esparramada nas bonitas relações, desloco-me da confusão – como se fosse uma só, como se fosse minha, como se fosse só minha. E você me acompanha. Ou foi o inverso? Vai saber! Haja bons encontros para desligar-me da paranóia. Ainda bem que me aproprio de sua confiança. Tanto quanto fiz com sua velhice. O mesmo com - veja você - a paranóia. Que, sim, é sua. Também tenho reclamado da poeira. E meu nariz mal pode cheirar o dicionário. Uma dificuldade, já que o encontra com freqüência. Não preciso falar do TOC. O banheiro já aprendeu a tomar banho nas madrugadas. Até para estes poréns caberia a pergunta disparadora de meio metro de conversas: a que custos? Para mim, vale o encontro. Há três anos. Nem que seja para eu com-partilhar que sou detalhista sim. E adicionar: também birrenta, metida, iludida e fantasiosa. Você confirmar tudinho. À parte ou aparte? Vai saber! Sei é que juntar minha memória com a sua pode dar samba. Ao menos, miudezas da Chile deu. Com chuva e tudo. Ora, se tava tudo trocado, o que a gente ainda fazia na rua? Era mesmo outro tempo. Tudo muito junto de uma vez ao mesmo tempo agora. Num sentido que só fazia ali. Naquele tempo. Ou já não fazia. Vai saber! Há oito meses eu já corria com pulgas em mim. E essas fugas não amenizariam cada susto pela velocidade dos acontecimentos. Ao contrário. Contabilizadas as ausências, intensificam-se os sustos. Imaginou? Então, lá vai. Somadas, vão aí quase dois meses sem grude. Talvez descolar tenha ajudado você a teimar entre um diálogo e outro com sua cutucada: eu disse que saia correndo de perto de mim. Parece que escuto você falar. Bem redondinho: eu-avisei!-eu-disse-que-saia-correndo-de-perto-de-mim. Ainda bem que teimosa sou eu. Está lá. Registrado. O algo real: amizade. Caberia, até, de susto, problemas bem-vindos. Porque seria mesmo uma viagem. Uma viagem muito nossa. Só não era nosso o como-quem-não-quer-nada, igual às perguntas da coroa, do mesmo número com um toque pirangueiro. Eu mereço! E você ainda conta os créditos para retornar. Eu mereço! Mais empática, ou adulta solidária, como queira, só ao enviar os links para eu saber quem é a personagem do Sítio, o trompetista do jazz, o japonês tocador ou o trajeto cult do chefe. Anotou a placa? xxx- nnnn. Se tivesse me avisado, eu teria gravado até hoje. Nem que fosse para provar que eu estou certa. E sua dúvida já aponta que eu não preciso fazê-lo. Velhas e chatas. Esqueci de corrigir outro número. Mais de vinte, não. Quase trinta. Com achados no seu baú que são meus novos encantamentos. E com meus achados que são suas novidades. Enfim, você reencontrando seus vocês. Eu descobrindo mais eus. E o novelo aumentando. Talvez em Sou eu possa mesmo ir só. Você estará comigo. Assim como viu os Andes do alto do Cerro Sta Lucia. Ou acordou olhando para o Osorno do outro lado do lago. Como disse o já citado Antunes: eu gosto de ficar só, mas gosto mais de você. Amo.
Mafalda, entidade, 25fev09
Mafalda, entidade, 25fev09
Substituição da relação que eu mantinha? Ela era muito cretina para merecer tanto. Mas algumas características poderiam ser conservadas. Esteve exatamente aí meu erro. Como eu poderia querer convivência com uma pessoa que eu não via? Acompanharia a moça amiga da discente, em associação fundada pela primeira, sem nem pensar: Associação dos Amantes Virtuais Anônimos (AAVA).
- Oi, meu nome é Keyla.
- Ooooooi, Keeeeeylaaaa.
Mafalda, AAVA, 24fev09
- Oi, meu nome é Keyla.
- Ooooooi, Keeeeeylaaaa.
Mafalda, AAVA, 24fev09
Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta feira sempre desce o pano
Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta feira sempre desce o pano
Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança
Chico, Sonho de um carnaval, 1965
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta feira sempre desce o pano
Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta feira sempre desce o pano
Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança
Chico, Sonho de um carnaval, 1965
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
De ontem para hoje tenho lembrado coisas que eu sequer sabia que existiu. Isso desde o roubo do beijo. As mudanças na moeda, todas nos primeiros três anos que aprendi a dar troco, caíram no meu juízo como um lembrete: eu só tinha nove anos. Lembro também de minha expectativa para ir para a fila da tabuada com o professor de matemática. Eu ficava nervosa, mas em êxtase. Bom mesmo era a chamada para responder uma equação no quadro. Eu fazia pulando as operações simples. Já sentia vergonha, mas só quando o assunto era de ciências, com o professor que depois deu aula de biologia. Nem sei em qual disciplina apresentei um seminário sobre o tempo. Mas lembro quanto lutei para aprender o que era relatividade. Noutro, o tema era a amizade. Foi quando cantei “amigos para sempre” com uma moça que de quando em quando encontro em paradas de ônibus.
Mafalda, infância, 24fev09
Mafalda, infância, 24fev09
João Guimarães Rosa foi o moço que eu procurei quando estava a voltar para casa há pouco mais de um mês. Grande sertão: veredas, um de seus títulos mais conhecidos, me chamara a atenção pela edição simples – que não pode ser de bolso pelo porte do livro, mas que a editora pretende de baixo custo, alegando meta de atingir maior número de leitores – exatamente ao contrário da suntuosa publicação comemorativa de Sagarana. Não li nem um nem outro. Fernanda e Ceição diriam: num vou mentir! Entoquei o primeiro exemplar na mochila quando sai da Leitura ou da Siciliano – a esta altura, vai saber!, no Pátio Brasil, em Brasília. Depois de trinta dias longe do espaço sertão – somente espaço, porque espírito sempre presente –, coube-me, de agrado a mim comigo mesma, como uma lembrança de mim. Como se não bastasse o sertão da Bahia para me fazer enxergar a volta! Eu já me via em voltas com o livro, quando falei do meu refúgio, que está, assim como o sertão, no mundo todo. Também ele me alertou para o luar de agosto, sei lá quando, eu a recordar meu padrinho contador de histórias. Por aqui, com o livro grudado na estante junto aos outros em andamento, desapeguei-me. Mas o moço não me larga desde então. O exemplar virou justificativa para um autor nacional estar entre os latinos, como se disso precisasse; perambulou pela casa, embaixo de Borges e ao lado de Mafalda; desistiu e cambaleou na estante nova, onde figurou na seção literatura. O sertão. O cordel. O sertão. Sol-idão. No mundo todo. Não se passaram dois dias para o diálogo com a amante do cara, ele logo se desencravou da coleção de guardados. Daí, citação para cima, citação para baixo e uma paixão: sua letra. Trabalhos em desatinos embutiram-no abaixo de artigos e cadernos e livros e agenda e contas. Até ser esquecido diante do recente empréstimo. Mas ele persiste. O moço é mais insistente e teimoso que eu! Aparece-me incauto, às vésperas da chuva no Recife, sob expressão de uma fada. O simples comentário me toma em busca desenfreada pela referência. Buscadores em desordem, documentos indisponíveis e uma só ordem: a íntegra - na Barra da vaca, Tutaméia. Tudo pelo dizer “felicidade se acha é só em horinhas de descuido”.
Mafalda, do descuido, 24fev09
Mafalda, do descuido, 24fev09
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Chove, Natal. Chove.
Só não me arranja uma arca de Noé.
Prefiro um barco de papel desenhado pelo Peter.
Mafalda, 23fev09
____________________________
Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos
Número zero
Vinicius de Moraes, A casa, 1980
Só não me arranja uma arca de Noé.
Prefiro um barco de papel desenhado pelo Peter.
Mafalda, 23fev09
____________________________
Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos
Número zero
Vinicius de Moraes, A casa, 1980
Hoje li um texto que tinha: auspiciosos. Logo me perguntei: como eu não me lembro da definição desse negócio? Corri para o dicionário que me disse o que eu precisava saber. Num futuro não muito distante, lembrarei que deveria sabê-lo, mas já terei esquecido novamente. É que esse termo só faz sentido dito e explicado por você. Saudades de virar madrugadas enxugando seus textos. Amo.
Mafalda, 23fev09
Mafalda, 23fev09
Em dias de correntes sonos entre uma leitura e outra, entre uma planilha e um currículo, entre um ctrl+c e a célula ao lado. Em dias de desordem da folia espraiada no país e da chuva que paira sobre o aqui, dedico-me à descoberta de mim. Logo me corrijo: de um mim. É que amanhã poderá não ser o mesmo mim. Amanhã não será o mesmo mim, é fato. E esta, hoje, quem sou? Leve ventania aporta nudez de autoconsciência e sossego no meu encontro. Eu sou um tempo, um lugar, um fazer. Paro não, eu. Movimento sem fim. Eu sou este tempo. Todo lugar. Cada afazer. Descubro-me eu. E me espanto.
Mafalda, 23fev09
Mafalda, 23fev09
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Paulo Leminski, Razão de ser, Ais ou menos, Distraídos venceremos, 1987. Obtido em 23fev09, de http://www.scribd.com/doc/3102163/livrosparatodos-net-Paulo-Leminski-Distraidos-Venceremos-pdf
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Paulo Leminski, Razão de ser, Ais ou menos, Distraídos venceremos, 1987. Obtido em 23fev09, de http://www.scribd.com/doc/3102163/livrosparatodos-net-Paulo-Leminski-Distraidos-Venceremos-pdf
Ela me diz "dentro". E eu descubro "deolinda".
Mafalda, 22fev09
_________________________________
Dia lindo, não é Deolinda?
O sol nem nasceu ainda
Mas o coração ciranda
O céu vai mudar de cor
E a turma chegando pra dançar
Dia lindo, não é Deolinda?
A noite nem bem se finda
E o sol já se espalha redondo
No riso de tudo que é flor
E a turma chegando pra dançar
É dia de coco e ciranda
De saia rodada no mar
Pipouco de gente que se espraia
Na praia arraiá de aluar
E eu tava mesmo Deolinda
Doido procurando por você
E eis que na hora de Nonô
É mesmo Deolinda quem vem chamar
Ô dia lindo
Vem Deolinda
Dançar
Dia lindo, pois é, Deolinda
Batuque de loa cambinda
Som de Moçambique, Luanda
O vendo cochichando amor
E a turma chegando pra dançar
Dia lindo pra ver Deolinda
Quando o berimbau dondinda
Um beijo, um cheiro de aonde
Um baque virado no olhar
E a turma chegando pra dançar
Deolinda é a filha de Iara
Um gozo de mola na preamar
É a Dona da mina do olho d'água
Fulozinha que a gente quer cheirar
Pois esse seu cheiro Deolinda
Desceu pelo rio com você
E eis que na banca de Nonô
É mesmo Deolinda que vem chamar
Ô dia lindo
Vem Deolinda
Dançar
Vicente Barreto & Chico César, Deolinda. Obtido em 22fev09, de http://letras.terra.com.br/chico-cesar/128521/
Mafalda, 22fev09
_________________________________
Dia lindo, não é Deolinda?
O sol nem nasceu ainda
Mas o coração ciranda
O céu vai mudar de cor
E a turma chegando pra dançar
Dia lindo, não é Deolinda?
A noite nem bem se finda
E o sol já se espalha redondo
No riso de tudo que é flor
E a turma chegando pra dançar
É dia de coco e ciranda
De saia rodada no mar
Pipouco de gente que se espraia
Na praia arraiá de aluar
E eu tava mesmo Deolinda
Doido procurando por você
E eis que na hora de Nonô
É mesmo Deolinda quem vem chamar
Ô dia lindo
Vem Deolinda
Dançar
Dia lindo, pois é, Deolinda
Batuque de loa cambinda
Som de Moçambique, Luanda
O vendo cochichando amor
E a turma chegando pra dançar
Dia lindo pra ver Deolinda
Quando o berimbau dondinda
Um beijo, um cheiro de aonde
Um baque virado no olhar
E a turma chegando pra dançar
Deolinda é a filha de Iara
Um gozo de mola na preamar
É a Dona da mina do olho d'água
Fulozinha que a gente quer cheirar
Pois esse seu cheiro Deolinda
Desceu pelo rio com você
E eis que na banca de Nonô
É mesmo Deolinda que vem chamar
Ô dia lindo
Vem Deolinda
Dançar
Vicente Barreto & Chico César, Deolinda. Obtido em 22fev09, de http://letras.terra.com.br/chico-cesar/128521/
Determinação, teu nome é Clariana. Ou Clari. Ou ClariClari. Prefiro o último. Não adianta toda e qualquer tramóia para não ser vista, Srta.. Pessoas percebem sua presença. Sentem e compreendem sua ausência. E vão insistir para te encontrar. Eu sei porque as pessoas fariam isso. Bastaram poucas corridas para eu sentir. Talvez na primeira eu já soubesse. Grata companhia. Rara companhia. Ouço burburinhos o tempo todo, de admiração, de apreço, de respeito. Quando eu crescer, quero ser como você.
Mafalda, para Clariana, 22fev09
Mafalda, para Clariana, 22fev09
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Não ouço dizer que manter um cotidiano relacionável, afável, de cortesia entre os conviventes de um imóvel seja das prioridades das pessoas. Falo pelo que eu conheço. Pelo menos, o que eu conheço não é assim. Ao contrário, com freqüência há reclamações de outrem sobre a, b ou c. Se preferir, outrem poderá ganhar nomes: Fulano, Sicrano e Beltrano. Eu tenho os nomes dos daqui de casa. E nem preciso dizer, porque história sabida por meio mundo de gente; porque se sua ignorância permitir ler este escrito se reconhecerá como a, b, ou c; porque citação desmerecida também. E, considerado o tempo de convivência com os outros ou com seus vestígios, deveria ser alvo de regimento. Uma ficaria alheia, nem questionaria – comportamento corriqueiro. O outro tacharia: muito formal; pra quê isso tudo? No regimento constariam os seguintes itens: higiene/limpeza, privacidade e visitantes. Se eu fosse menos burocrática, poderia acatar a sugestão de Sol. Bem mais prática, ela se disponibilizou a desenhar. Não sei se o regimento será escrito ou funcionará. Na real, só precisamos de combinados e o acordo de hoje poderá funcionar bem. Já para a visita - acho que não é analfabeto, que poderá olhar, acompanhar letrinha a letrinha e entender - adianto: sua presença me provoca náusea.
Mafalda, o inferno é aqui, 21fev09
Mafalda, o inferno é aqui, 21fev09
Chega da mesmice da chatice do que é óbvio
Deixa do buraco de araraque, do que é pobre
Passa o miasma do espelho que não vejo
Vamos pra avenida que é carnaval
Que se exploda o sórdido
Ardido sal que corrói
Bem vindo o punhal de puro aço
Que corta o cordão umbilical
Dos olhos fica o brilho
Pra mãe fica o filho
Bem vinda a liberdade
De poder sorrir no final
E que seja constante
A certeza do diamante
Diamante bruto
De sua pura beleza
Porque o que os olhos vêem o coração sente
Deixa pras quatro paredes cuidarem do escatológico
Pula passarinho, vai voar pelo mundo
E que seja nesse segundo
Amanda, decifra-me ou te devoro, 21fev09
Deixa do buraco de araraque, do que é pobre
Passa o miasma do espelho que não vejo
Vamos pra avenida que é carnaval
Que se exploda o sórdido
Ardido sal que corrói
Bem vindo o punhal de puro aço
Que corta o cordão umbilical
Dos olhos fica o brilho
Pra mãe fica o filho
Bem vinda a liberdade
De poder sorrir no final
E que seja constante
A certeza do diamante
Diamante bruto
De sua pura beleza
Porque o que os olhos vêem o coração sente
Deixa pras quatro paredes cuidarem do escatológico
Pula passarinho, vai voar pelo mundo
E que seja nesse segundo
Amanda, decifra-me ou te devoro, 21fev09
Lá, naquele tempo da paciência, ela poderá publicar "O livro das epifanias de mim". Talvez numeradas de trás para frente, como ela lê as coisas, levando de volta ao quando a devastação renovadora começou.
Então, pode ser que o divino se materialize, naquele conjunto de registros do cotidiano, em que cabe uma enorme diversidade. E, pode ser que isso responda o que faz dali o tempo da paciência.
E ele assim possa ser mesmo.
Espero estar lá.
Sol, Previsão do tempo, 19fev09
Então, pode ser que o divino se materialize, naquele conjunto de registros do cotidiano, em que cabe uma enorme diversidade. E, pode ser que isso responda o que faz dali o tempo da paciência.
E ele assim possa ser mesmo.
Espero estar lá.
Sol, Previsão do tempo, 19fev09
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Consegui emprestado e comecei a ler “A menina que roubava livros” por indicação de minha professora. Uma, duas, três vezes seguidas. Muito difícil eu engatar na leitura de um livro de uma só vez. Neste, eu tinha uma companhia já avisada. Tia conseguira uns seis livros desses entre presentes para ela ou para a caçula. Doou, presenteou, emprestou, até que o último foi para a casa do ex-marido, um dia antes de eu comunicar que me interessava pela leitura dele. Ela o dispensou por conta da companhia. Exatamente o que prendia a atenção da professora, que encontrou na narrativa uma eu que roubava livros. Virei sua personagem, uma menina em primeiro encontro com a morte. Hoje, adormecida, eu que a encontro em pesadelos. Mais pesadelos. Encadeavam-se assassinato, culpa, caminho com carregamentos de café embaixo de chuva interminável, daquelas que surtam Natal de dois em dois meses. Até que eu e meu pai desviamos do caminho para logo chegar ao destino. E meu irmão percorreu um outro, não sabido, talvez mesmo o previsto. Antes de agoniar-me com a busca, eu acordo com o ruído. Ele chega a casa, bate a porta, liga o som em Bossa Nova, quase expulsando Beirut do computador.
Mafalda, 21fev09
Mafalda, 21fev09
Imagina, gente! Não beber para enxergar vultos em esquinas. Acompanhar os batuques até o fim da rua e voltar ao bar para comprar água, simulando primeiro encontro. Todo sorriso, toda fisionomia, todo porte físico, reconhecidos em estranhos. Seria a mesma paranóia de dois anos atrás. Ainda bem que não fui.
Mafalda, Ó-linda, 21fev09
Mafalda, Ó-linda, 21fev09
Tentei Camelo e Montenegro. Passei por Calcanhotto, Chico, Céu. Será que rola Buena Vista Social Club? Cartola, Cordel, Lenine... não. Poderia escutar os novos, Mundo Livre, Os Bonnies. Já sei! Nina Simone. Mas só tenho três músicas dela. OK, vamos lá! Camelo. E na terceira ou quarta canção, o incômodo com a melodia carnavalesca de Copacabana. Apelou, perdeu! Beirut.
Mafalda, 21fev09
Mafalda, 21fev09
Dispersar sentimentos de querer, de posse. Dispensar desejos. E dedicar-me a bem-querença. Aí, talvez, você possa compreender-me. Compreender minha ânsia por arriscar, minha fúria no desprezo, minha necessidade de des-atenção. Para sentir-me. Sentir-me verdadeiramente afastada, distante, não-quista. Superar o vício êméssiênístico. E, ao mesmo tempo, descartar todas as possibilidades de encontro. Para, contraditoriamente, permitir-me encontrar. Olhar, tatear, cheirar, abraçar. Permitir-me sentir. Precisei afastar-me. Precisei dizer rudezas. Roer semanas. Destrambelhar diálogos. Intoxicar-me. Questionar cumprimentos. Crer-te um invento real. Crer-te importante, mas não presente. Tornar-me rabugenta presença. Incomodar, como reflexo de sua ausência incômoda. Rejeitar para ver-me rejeitada. Até cansar e desistir. Aí, talvez, de cansaço, eu fique leve. Leve. E consiga erguer-me numa relação saudável. Num bem-querer bem-quisto. Nesse entretempo, amontoar histórias bonitas para te contar. Cuide-se. Cuidemo-nos.
Mafalda, 20fev09
Mafalda, 20fev09
Ainda num tinha agradecido.
Pela carona e por eu poder pedir.
Pela prontidão em ir e por ouvir na ida.
Pela espera na porta e pela agilidade na saída.
Pela fala que preencheu a volta e pelo respeito ao silêncio.
Por enfeitar o que me interessa e por eu fazer parte do que lhe interessa.
Agradeço.
E amo.
Muitíssimo!
Sol, para Pat., 20fev09.
_________________________________________________________
[2]
Mafalda, 20fev09
Pela carona e por eu poder pedir.
Pela prontidão em ir e por ouvir na ida.
Pela espera na porta e pela agilidade na saída.
Pela fala que preencheu a volta e pelo respeito ao silêncio.
Por enfeitar o que me interessa e por eu fazer parte do que lhe interessa.
Agradeço.
E amo.
Muitíssimo!
Sol, para Pat., 20fev09.
_________________________________________________________
[2]
Mafalda, 20fev09
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Ela desatinou
Viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira
Bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando
Ela desatinou
Viu morrer alegrias
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando
E ela inda está sambando
Ela não vê que toda gente
Já está sofrendo normalmente
Toda cidade anda esquecida
Da falsa vida da avenida onde
Ela desatinou
Viu morrer alegrias
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando
E ela inda está sambando
Quem não inveja a infeliz
Feliz no seu mundo de cetim
Assim debochando
Da dor, do pecado
Do tempo perdido
Do jogo acabado
Chico, Ela desatinou, 1968
___________________________________
Para variar.
Mafalda, lendo de revés, 20fev09.
Viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira
Bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando
Ela desatinou
Viu morrer alegrias
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando
E ela inda está sambando
Ela não vê que toda gente
Já está sofrendo normalmente
Toda cidade anda esquecida
Da falsa vida da avenida onde
Ela desatinou
Viu morrer alegrias
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando
E ela inda está sambando
Quem não inveja a infeliz
Feliz no seu mundo de cetim
Assim debochando
Da dor, do pecado
Do tempo perdido
Do jogo acabado
Chico, Ela desatinou, 1968
___________________________________
Para variar.
Mafalda, lendo de revés, 20fev09.
Perdida
Na avenida
Canta seu enredo
Fora do Carnaval
Perdeu a saia
Perdeu o emprego
Desfila natural
Esquinas
Mil buzinas
Imagina orquestras
Samba no chafariz
Viva a folia
A dor não presta
Felicidade sim
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas
Bambeia
Cambaleia
É dura na queda
Custa a cair em si
Largou família
Bebeu veneno
E vai morrer de rir
Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas
Chico, Dura na queda (Ela desatinou nº 2), 2000
Na avenida
Canta seu enredo
Fora do Carnaval
Perdeu a saia
Perdeu o emprego
Desfila natural
Esquinas
Mil buzinas
Imagina orquestras
Samba no chafariz
Viva a folia
A dor não presta
Felicidade sim
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas
Bambeia
Cambaleia
É dura na queda
Custa a cair em si
Largou família
Bebeu veneno
E vai morrer de rir
Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas
Chico, Dura na queda (Ela desatinou nº 2), 2000
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Num dia completamente acadêmico - leia como quiser, desde que não esqueça bastidores, reunião, corredores, coordenação, leituras, reunião, discussões - inserindo todos os tópicos contra e a favor de um bom rendimento, isto conta com o café desfavorável, cansei. Aliás, só cansei mesmo depois de um debate premente, quase-desistível, há sete anos.
Mafalda, Epifania nº 13, 18fev09
Mafalda, Epifania nº 13, 18fev09
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Ele já havia repetido minha história no meio da semana. Numa tarde de domingo, naqueles almoços de comida qualquer às quatro da tarde, indaga próximas possibilidades de descanso. Contrariado, argumenta com todas as voltas que só eu e ele sabemos dar. E desenvolve seu itinerário em pensamentos longínquos: "a cada 10 km que você vai mais longe, a cada 100 km mais longe, mais você vai lá, lá onde eu falei, Q. I. Lá. Lá longe".
Mafalda, Epifania nº9, 16fev09
Mafalda, Epifania nº9, 16fev09
E de novo bate aquela vontade desesperada de ir embora.
Concluiria o trampo em menos de um ano, só precisaria da biblioteca do IPUSP, de visitas quase-diárias à livraria cultura e de diálogos intermináveis com sebistas de Pinheiros.
Peso os pesos do cotidiano familiar, penso no novo lugar que não seria aproveitado e nas novas bem-aventuranças com gente que anda aparecendo.
Mas bate, bate, de novo, aquela vontade desesperada de ir embora.
É inútil manter-se no mesmo lugar. No lugar do não existir.
Sinto-me inútil. Inutilizada.
Ó mente infértil, por que pensas?
Por que só pensas em não estar aqui?
Mafalda, 16fev09
Concluiria o trampo em menos de um ano, só precisaria da biblioteca do IPUSP, de visitas quase-diárias à livraria cultura e de diálogos intermináveis com sebistas de Pinheiros.
Peso os pesos do cotidiano familiar, penso no novo lugar que não seria aproveitado e nas novas bem-aventuranças com gente que anda aparecendo.
Mas bate, bate, de novo, aquela vontade desesperada de ir embora.
É inútil manter-se no mesmo lugar. No lugar do não existir.
Sinto-me inútil. Inutilizada.
Ó mente infértil, por que pensas?
Por que só pensas em não estar aqui?
Mafalda, 16fev09
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Macho e fêmea os criou.
Bíblia: Gênese, 1, 27
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
Vinicius, O dia da criação
sábado, 14 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Nas três horas e mais alguns minutos de conversa, dava para apreender muito. Mas eu processo tudo depois. Tudo mesmo. Às vezes, muito depois. Sem exageros poéticos. Um terço desse tempo foi dedicado ao convencimento de que meu desconforto é vão; de que a não explicitação de um método não indicaria a ausência deste. Não de procedimentos e formas e caminhos. Era claro, eu queria falar de dialética. Que não é lá uma tarefa das mais fáceis. Ao contrário. Prescindia de muito sobre teorias do conhecimento. Que não é bem minha praia nesse estudo, apesar de meu interesse ambicioso por quase tudo que diga respeito a isso. Rodeou. Exemplificou. Citou Kosik. E num desfecho próprio de sua característica mais conhecida, a objetividade, findou a agonia: é melhor fazer dialeticamente uma pesquisa do que preparar seu leitor dizendo que vai fazê-la e findar não dando conta. A concordância foi automática: claro! – sem o tom arrogante que damos no português. O castelhano usa e abusa dessa expressão como um simples “sim, como não”. Neste contexto, coube bem. Ainda na mesma reunião, só que bem depois, dei-me conta da associação entre o enunciado do mestre e o dito popular que encantou meu dia-a-dia: a palavra cão não morde. Há de ser concreto para existir. O dito pode assumir uma posição. Em política isso funciona muito bem, via discurso. Mas não basta dizer. Não revoluciona. Nada. E quem disse que quero menos que isso?
Mafalda, 10fev09
Mafalda, 10fev09
De sua presença, a lembrança. Keyla coelha telha. Coelha telha. Telha coelha. E me fez lembrar que minha falta de memória talvez seja saudável. Que não sou personagem de Borges. Que não sou Funes. Que Capitu foi culpadíssima, não havia defesa contra tramóias. Não ser Funes me permite escolher boas recordações. É de querer amanhecer escutando “Her morning elegance”. E discutir a racionalidade do caos. E trocar zil músicas. E descobrir quando descobriu Beirut. E trocar tudo por natação. Melhor ouro. Prefiro prata. De qualquer forma, Samanaú. E prometer fotos. E prometer músicas. E prometer bares. E nos encontrar insones. E nos encontrar começos. E nos encontrar comuns. Transgressõesinhas. Que eu não entendo, eu não consigo acompanhar, é um raciocino muito diferente do que estou acostumada! Ordem? Caos? Filosofia da experimentação. Do meu jeito. Do seu. Do outro-seu-jeito. Imagina, repetindo, repetindo, repetindo! É, é de lembrar. Do mesmo com-partilhar referido pela minha amiga Pat.
Mafalda, Epifania nº 4, 10fev09
Mafalda, Epifania nº 4, 10fev09
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
só não se dilui. continua a existir. só=solitário=solidão.
muda a ênfase. o colo abre o espetáculo das máscaras de resiliência, aos 19, aos 26.
substiui-se por mãe, mulher, matrix (rs), controle total (fucô se abala no túmulo!).
in-discente, mais decente que já vi!
vê se não finge... já basta eu.
amanhã eu quero mais um suco!
cuide-se.
Mafalda, discente, 25out08
muda a ênfase. o colo abre o espetáculo das máscaras de resiliência, aos 19, aos 26.
substiui-se por mãe, mulher, matrix (rs), controle total (fucô se abala no túmulo!).
in-discente, mais decente que já vi!
vê se não finge... já basta eu.
amanhã eu quero mais um suco!
cuide-se.
Mafalda, discente, 25out08
Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinqüenta, que projetou meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente daquela e pagar ao barbeiro.
Graciliano Ramos, Linhas tortas, [trecho de] Um amigo em talas, 1983
_________________________________________
De releituras para o meu filho do mal.
Mafalda, 01fev09
Graciliano Ramos, Linhas tortas, [trecho de] Um amigo em talas, 1983
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De releituras para o meu filho do mal.
Mafalda, 01fev09
Quando eu saí de Natal com passagem de volta para o ano seguinte, eu tinha na cuca única idéia fixa: não queria mais voltar no ano em que eu estava. Era como uma superstição ou coisa que o valha. Tudo e qualquer coisa para ver dores e estragos acabarem-se por si. Como se não dependessem de mim. Como se eu chegasse no mundo encantado do bem-querer, do bem-estar, do prazer. Não foi assim. De começo senti dores. E não eram cólicas, não as sinto. As menores se traduziram em saudades do que foi bom e terno e divertido dos dias anteriores. E de como aqui eu não via o mesmo. Foram rebuliços amorosos. E foi preciso um dedo enfiado na cara, por alguém tão próximo que quase eu, para me acordar e dizer: que merda é essa que você está fazendo com sua vida? Parecia que eu tinha me enfiado no mundo das drogas. E tinha.
Mafalda, 09fev09
Mafalda, 09fev09
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